O corredor autoritário
Com a chegada de Hugo Chávez ao poder, nasceu a nova variante do
autoritarismo latino-americano. Conhecida como “revolução bolivariana” e
“socialismo do século XX”, ela tem quatro características: a revolução
como pretexto para derrubar as instituições republicanas; a receita
energética, sistema que, em vez de aumentar a produção das riquezas do
subsolo, as descapitaliza e malbarata na conquista de clientelas
eleitorais; a compra de in-fluên-cias externas para estender seu modelo
aos muitos países que optaram pela via razoável; e, por último, a
intenção de fazer da China um salva-vidas internacional que resolva
todos os seus problemas.
Durante alguns anos, a sorte pareceu sorrir para o populismo de
Venezuela, Equador, Bolívia, aliados íntimos, e Argentina, um amigo
próximo. Isso se deveu à bonança das commodities e ao uso de ingressos
fiscais extraordinários (1,4 bilhão de dólares desde 1999 na Venezuela)
para melhorar a qualidade de vida de uma ampla clientela social e
política no curto prazo.
A Venezuela viu o preço do petróleo subir de 8 dólares o barril para
três dígitos e utilizou 1 de cada 4 dólares das vendas do gigante
petrolífero PDVSA para fazer populismo. A Bolívia, graças ao gás, que só
requeria abrir as válvulas, viu sua arrecadação fiscal triplicar em
sete anos (os Estados Unidos precisaram de quarenta anos para triplicar a
sua). Assim como a Venezuela, a Bolívia pôs parte dessa bonança a
serviço do populismo. Alguns países populistas, como a Argentina,
registraram nesses anos, graças à soja e aos grãos, taxas de crescimento
econômico de 8% em média. Não estranha, portanto, que, nos anos que
precederam o fim da bolha mundial, nesses países da esquerda carnívora
se registrasse uma queda da pobreza.
Mas a miragem acabou. A elevação meteórica dos gastos públicos, o
aumento artificial da demanda, as expropriações e o ambiente agressivo
contra o capital, a insegurança jurídica permanente e a retórica
antiempresarial incendiária, tudo isso no contexto de uma ofensiva
contra a democracia, só poderiam conduzir aos resultados que vemos hoje:
inflação, desequilíbrio das finanças do estado, descapitalização da
economia, taxas de crescimento muito fracas e muita corrupção.
A produção de petróleo da Venezuela passou de 3,5 milhões de barris
diários para 2,6 milhões. O Equador produz 40 000 barris a menos por dia
e a Bolívia viu evaporar metade das reservas de gás natural,
equivalentes a 4% de seu PIB, em parte desde a nacionalização. A
arrecadação fiscal desses países já não consegue financiar seu
populismo.
O investimento privado foi a pique e, com ele, a taxa de investimento
geral. Na Bolívia, hoje, a principal fonte de investimento é o estado: o
investimento público é muito superior ao investimento privado nacional,
que não chega a 5% do PIB, e ao estrangeiro. No Equador, o valor do
investimento estrangeiro acumulado caiu 40% durante o atual governo. A
economia argentina, com escassíssimo investimento externo, cresceu
apenas 2% no total em 2012. Para compensar a fuga de capitais e a queda
acelerada das reservas, a Argentina estabeleceu controles que não eram
vistos na América Latina desde Salvador Allende no Chile. O resultado de
tudo isso é o sofrimento dos proletários e o fortalecimento dos grupos
de poder próximos dos governos: no caso da Venezuela, a “boliburguesia”.
Mas as consequências do populismo “bolivariano” não são apenas as que
estes povos padecem. Elas atingiram também a região em seu conjunto. Eu
diria que foram três.
Primeiro, a submissão política de vários governos dependentes do
petróleo venezuelano, o que se refletiu nos organismos hemisféricos, a
começar pela Organização dos Estados Americanos, onde a influência
chavista foi desproporcional. A aliança entre Venezuela e Cuba controlou
a política exterior de dezoito países por meio do mecanismo
Petrocaribe, que permite ao Caribe e à América Central adquirir petróleo
muito barato, e da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa
América).
A segunda consequência: tornou-se muito difícil para as nações em
melhor situação, como as da Aliança do Pacífico (México, Chile, Colômbia
e Peru), exportar seu modelo para a região. Agora que o boom das
matérias-primas terminou, as implicações são evidentes: muitos países da
região não estão preparados para o que vem aí. Isso para não mencionar
que a batalha pela democracia liberal sofreu um retrocesso.
A terceira consequência: a fragilidade da liderança do Brasil na
América Latina (por sua vez, o vazio deixado pelo país ajudou a
facilitar a projeção excessiva dos “bolivarianos”). Lamentavelmente, a
potência sul-americana não quis assumir a liderança para promover um
consenso regional sobre as benesses da democracia, da economia de
mercado e da globalização. Brasília preferiu deixar que os países
governados pela esquerda radical tivessem a iniciativa regional. Agora é
tarde porque o Brasil se desacelerou economicamente e perdeu parte do
brilho internacional que tinha.
Como outras modas autoritárias, a dos “bolivarianos” passará. Mas sua
contribuição para o subdesenvolvimento de vários países não deve ser
esquecida.
Álvaro Vargas Llosa, peruano, é escritor e jornalista, autor de
numerosos livros sobre economia política. Foi nomeado Jovem Líder Global
pelo Fórum Econômico de Davos e eleito pela revista Foreign Policy um
dos cinquenta intelectuais mais influentes da Ibero-América em 2012
- 28 de septiembre, 2026
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